RISCO DA INGESTÃO DE FARINHAS DE MANDIOCA E TUCUPI COLORIDOS ARTIFICIALMENTE


Raimundo Nonato Brabo Alves
Eng. Agrôn. M.Sc. em Agronomia. Pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental. E-mail: raimundo.brabo-alves@cpatu.embrapa.br

Moisés de Souza Modesto Junior
Eng. Agrôn. Especialista em Marketing e Agronegócio. Analista da Embrapa Amazônia Oriental. E-mail: moises.modesto@embrapa.br

 

Farinha brancaFarinha branca

 

Farinha amarela naturalFarinha amarela natural

 

Farinha amarela artificialFarinha amarela artificial

[EcoDebate] Os amazônidas e especialmente os paraenses são consumidores natos de mandioca, principalmente na forma de farinha de mesa e na composição de pratos típicos como o pato no tucupi, a caldeirada paraense de peixe e o tacacá, que apresentam em suas receitas o tucupi. Para o paraense a farinha de mesa é indispensável nas refeições e o tucupi diferencia o sabor dos pratos regionais, inclusive mantém a tradição da degustação do tacacá, pela parte da tarde, diariamente.

Considerando a produção de mandioca da região Norte de 7.787.395 toneladas da raiz (IBGE, 2015), estima-se que 98% seja processada para fabricação de farinha de mesa com um rendimento de 25%, resultando em um consumo de 1.907.911 toneladas na região, somente neste ano.

Na farinha de mesa as preferências vão de farinhas d’água a farinha seca ou farinha mista, de acordo com a palatabilidade, crocância, textura e digestibilidade de cada tipo. Os consumidores também expressam preferências quanto à coloração: optando pelas farinhas amarelas e menos pelas farinhas brancas e cremes.

Em condições naturais, a cor da farinha é originada em função da coloração da polpa das raízes de mandioca processadas. Farinhas brancas ou cremes são resultantes do processamento de raízes de cultivares de polpa branca ou creme e a farinha amarela é obtida de raízes de cultivares de polpa amarela que tem maior concentração de betacaroteno, sendo a preferida no mercado. As cultivares de polpa amarela também são destinadas a extração do tucupi, produto extraído da prensagem da massa triturada da raiz de mandioca.

Quando a demanda de farinha amarela se elevou no mercado, principalmente para atender o consumo na forma de farofas temperadas, os farinheiros tiveram que recorrer ao uso de corantes artificiais para intensificar a cor amarela nas farinhas obtidas de raízes de polpa branca e creme, para torná-la mais atraente ao consumidor. Passaram a usar o corante amarelo-tartrazina (produto usado na indústria de alimentos e medicamentos e permitido pelo órgão de vigilância sanitária), já que a oferta de mandiocas com raiz de polpa amarela não era suficiente para atender a demanda do mercado.

Chama-se a atenção dos consumidores para o risco do consumo de farinha amarela e de tucupi coloridos artificialmente, pois os corantes são usados de forma indiscriminada e em dosagens elevadas, alguns potencialmente carcinogênicos, devendo ser considerada uma adulteração do produto.

A aplicação do corante tartrazina resulta em uma farinha de cor amarelo vivo, facilmente distinguível das demais farinhas. O tucupi contendo corante artificial quando precipita mantém a coloração amarela em todo o conteúdo, quando exposto em garrafas PET, ao contrario do tucupi natural, que quando em repouso, precipita a parte sólida que dá cor amarela natural ao produto, expondo uma água quase transparente na parte superior. A cor amarela só é ressaltada no tucupi natural quando a garrafa é agitada e o líquido volta a ficar uniformizado.

O problema é que o uso indiscriminado desse corante pode prejudicar a saúde dos consumidores, por estar incluído no rol de substâncias alergênicas, principalmente se usado acima das doses recomendadas.

Prospecções realizadas em algumas farinheiras do Nordeste Paraense evidenciaram a utilização do corante amarelo-tartrazina na dosagem de 400g para 20 litros de água, solução suficiente para 1.000 kg de farinha, quando a dose máxima permitida seria de 300g de tartrazina por tonelada de farinha.

A tartrazina (INS 102) é um pigmento sintético do grupo funcional dos azo-compostos (compostos orgânicos que contém nitrogênio em sua estrutura química). É derivada do creosoto mineral e possui boa solubilidade em água. É usada em condimentos, sorvetes, balas, goma de mascar, gelatina, como também em cosméticos e medicamentos.

Seu uso é permitido por lei conforme a ANVISA, mas o fabricante é obrigado a informar a presença deste corante com a seguinte frase no rótulo: “Este produto contém corante amarelo de tartrazina que pode provocar reações alérgicas em pessoas sensíveis”, para os alimentos e “Este produto contém o corante amarelo de tartrazina que pode causar reações de natureza alérgica, entre as quais asma brônquica, especialmente em pessoas alérgicas ao Ácido Acetil Salicílico”, isto nos medicamentos. Ocorre que não vem sendo cumprida esta exigência legal nas embalagens de farinha de mandioca coloridas artificialmente.

O corante tartrazina foi avaliado toxicologicamente pelo Joint FAO/WHO Expert Committee on Food Additives – JECFA, grupo de especialistas que avalia a segurança de uso de aditivos para o Codex Alimentarius, com enfoque em análise de risco. O JECFA determinou a IDA (Ingestão Diária Aceitável) numérica de 7,5 mg/kg de peso corpóreo para tartrazina. Isso significa, por exemplo, que uma criança de 30 kg e um adulto de 60 kg podem consumir de 225 mg a 450 mg de tartrazina por dia, respectivamente, sem risco provável à saúde, à luz dos conhecimentos disponíveis na época da avaliação.

A situação torna-se ainda mais grave no meio rural, pois os farinheiros adquirem no mercado informal, o corante em embalagem de saco plástico, sem rótulo, em porções de 100 g, com sérios riscos de ser um produto fora do prazo de validade e sem controle de qualidade, pois eles não sabem nem o nome do produto adquirido, se referindo ao mesmo como “tinta”.

O consumo de tartrazina acima das doses permitidas pode provocar, reações alérgicas em pessoas sensíveis ao corante como asma, bronquite, rinite, náusea, broncoespasmos, urticária, eczema e dor de cabeça.

Um paradoxo ocorre no processamento da farinha: enquanto os farinheiros utilizam a fermentação das raízes, torragem da farinha e fervura das folhas e do tucupi visando reduzir os teores de ácido cianídrico – um veneno mortal – dos derivados da mandioca, ao mesmo tempo por desconhecimento, acrescentam excesso de corantes alergênicos à farinha e ao tucupi.

Deve-se orientar os agricultores e farinheiros sobre os problemas causados pelo uso indiscriminado de corantes artificiais à saúde humana e incentivá-los para aumentarem a área de produção de mandioca com cultivares de polpas amarelas para o preparo de farinha amarela natural. Quando o uso do corante for indispensável, deve-se adquirir de estabelecimentos idôneos e usá-los conforme a dosagem recomendada em suas embalagens, atendendo a exigência legal.

Recomenda-se aos consumidores se alimentarem de farinhas de cor branca e creme e, quando optarem pela amarela, escolham aquelas sem uso de corantes artificiais. A farofa pode ser temperada no momento da torragem e colorida com o uso de urucum (coloral) que é um corante natural sem efeitos alergênicos ao consumo humano.

Considerando que a adição de corantes artificiais na farinha e no tucupi acima da dose permitida pode afetar diretamente a saúde humana, sugere-se uma campanha para desestimular o consumo desses produtos coloridos artificialmente.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 04/09/2017

"Risco da ingestão de farinhas de mandioca e tucupi coloridos artificialmente, por Raimundo Nonato Brabo Alves e Moisés de Souza Modesto Junior," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 4/09/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/09/04/risco-da-ingestao-de-farinhas-de-mandioca-e-tucupi-coloridos-artificialmente-por-raimundo-nonato-brabo-alves-e-moises-de-souza-modesto-junior/.

 


SOPRO DE VIDA

 

 

Quando se é jovem

A vida corre desenfreada

Como um caudaloso rio

Rumo a um futuro

Incerto e distante.

 

 

De repente

O futuro chega

A incerteza continua

E a distância se encurta

Por puro encanto.

 

 

 

É o rio que secou.

Banana na Amazônia? Bingo!

Embrapa cria estratégica lúdica de plantio em comunidades no Pará, com base no tradicional jogo



Comunidades rurais do interior do Pará estão recebendo a ajuda da Embrapa para implantar o cultivo de banana na região, a fim de aumentar a renda e a segurança alimentar. Até aí, nada de mais, já que essa é a tarefa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, criada há 44 anos para desenvolver um modelo de agricultura e pecuária adaptado às condições e às necessidades do país. A novidade é que, em plena Amazônia, os especialistas da Embrapa recorreram a uma ferramenta para lá de criativa de compartilhar informações e conhecimento: um bingo.

Isso mesmo: o velho jogo de cartelas e números foi usado como modelo de transferência das tecnologias desenvolvidas pela Embrapa, em uma estratégia pioneira criada pelo analista Moisés Modesto Júnior e pelo pesquisador Raimundo Nonato Brabo Alves. Eles perceberam que o bingo é muito popular entre os agricultores do Pará e que as divisões numéricas da cartela parecem os croquis de um bananal, na forma de quadrados nos quais as mudas são plantadas. Então, foi só ligar os pontos e... bingo!

A ideia é bem simples. Cada agricultor recebe 16 mudas de bananeira para serem plantadas nas casas centrais do croqui. Cada muda costuma render vários brotos laterais, chamados de perfilhos, que são transplantados para as demais casas, até que toda a cartela seja preenchida com 100 touceiras.

Além de ensinar essa técnica de manejo em uma região em que não se plantava bananeira, a Embrapa forneceu mudas de um novo tipo, o BRS Pacoua, lançado em 2016 e resistente às principais pragas e doenças que atacam a cultura. Graças a essa característica, os agricultores podem adotar o cultivo orgânico, sem uso de defensivos agrícolas.

O método foi chamado de Bingo Banana e o primeiro teste se realizou na comunidade de Vista Alegre, na ilha de Outeiro, perto de Belém. Logo depois os técnicos da Embrapa foram procurados pela prefeitura de Mãe do Rio, cidade a cerca de 200 km da capital, interessada em incentivar os agricultores locais a cultivar alimentos para a merenda escolar. O resultado agradou e, em seguida, o projeto foi levado a outros municípios paraenses.

Entre os agricultores que passaram a aplicar o Bingo Banana está Francisco das Chagas Santos, conhecido como Carimbó, que aproveitou os ensinamentos dos técnicos da Embrapa para instalar um SAF (Sistema Agroflorestal), diversificar a produção e obter renda o ano todo. “Hoje tenho a banana na minha propriedade, mas também plantei em consórcio o açaí, a pupunha e o cupuaçu”, explicou.

Assista no site oficial da Embrapa a um vídeo em que um analista de pesquisa mostra como o Bingo Banana é aplicado na comunidade São Braz em Bujaru, interior do Pará.

 

FONTE: https://www.bayerjovens.com.br/pt/materia/?materia=banana-na-amazonia-bingo

MARÉ MANSA

Levo a vida,

Como maré de lua cheia.

De noite, lava a praia,

De manhã, não há pegadas na areia.

 

Cada dia,

Melhor que o anterior.

Porque apostar no amanhã,

Que pertence a meu Senhor?

 

Eta vida de maré,

Um dia é maré alta,

Outro dia, baixa maré.

 

Não importa,

Vida é assim mesmo,

É que nem vida de ator,

Um dia interpreta o rei,

Outro mendigo ou doutor.

 

Levo a vida,

Empenhando esses papeis,

Entre vícios e trejeitos,

Até que eu saia um dia ,

Deste cenário de imperfeitos.

PRA LÁ DE MARRAKESH

[EcoDebate] Essa expressão era muito popular na década de 1970 e significava que quem estava “prá lá de Marrakesh” estava meio atabalhoado ou perturbado do juízo. Lembrei a expressão por ler as matérias que tratam da reunião da COP-22, a conferência do clima da ONU, que se iniciou nesta segunda feira 07 de novembro em Marrakesh, no Marrocos. Essa expressão caiu de uso. Hoje o Marrocos é uma rota turística de alta demanda, com hotéis suntuosos.

Chamou meu interesse a manchete sobre o relatório dos pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UERJ) que será apresentado na referida conferência, alertando prefeitos das cidades brasileiras para as consequências dramáticas do aquecimento global.

Segundo o que recomendam os pesquisadores no relatório, “os municípios que não mudarem a forma com que lidam com água, transportes e gestão de lixo e resíduos enfrentarão problemas como desabastecimento e energia, hospitais superlotados, inundações e desmoronamentos, com impactos mais fortes nas regiões mais pobres”.

Nada mais oportuno que chamar a atenção dos gestores municipais para os problemas ambientais que no final das contas oneram os orçamentos das prefeituras para minimizar seus impactos, sem promover bem-estar aos munícipes. Afinal segundo os mesmos pesquisadores, foram inúmeras as conferências realizadas no campo da diplomacia, porém decepciona o abismo entre as discussões globais sobre o clima e a “vida real” das cidades brasileiras.

A preocupação com a água é imperiosa. Neste item extrapola a responsabilidade da municipalidade. Escrevi sobre esse tema logo após o desastre de Mariana:

Em comentário da Lei 9433/1997 que instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos, Paulo Affonso Leme Machado em seu livro Recursos Hídricos, Direito Brasileiro e Internacional afirma: “o uso da água não pode ser apropriado por uma só pessoa, física ou jurídica, com exclusão absoluta dos outros usuários em potencial; o uso da água não pode esgotar o próprio bem utilizado. A concessão ou a autorização (ou qualquer tipo de outorga) do uso da água deve ser motivada ou fundamentada pelo gestor público”.

Paulo Affonso afirma ainda na página 26 do referido livro: “O poder Público não pode agir como um “testa-de-ferro” de interesses de grupos para excluir a maioria dos usuários do acesso qualitativo e quantitativo às águas. Seria um aberrante contrassenso o domínio público “aparente” das águas, para privatizá-la, através de concessões e autorizações injustificadas do Governo Federal e dos Governos Estaduais servindo ao lucro de minorias. A água é um direito humano, não um produto a ser comercializado”.

Será que a legislação vem sendo aplicada ou a realidade vem se contrapondo ao que propõe Paulo Affonso e se transformando num “aberrante contrassenso”. A poluição recente do Rio Doce expõe o Brasil ao mundo o quão atabalhoada vem sendo a política de administração de nossos recursos hídricos

Mais de 300 mil cidadãos de maneira trágica estão submetidos a humilhante disputa de míseros litros de água para matar a sede, ou ao pagamento de preços aviltados por maior porção de “água mineral” para o atendimento diário de suas necessidades básicas.

O gerenciamento do recurso água deve ser responsabilidade dos municípios, estados e da União. O maior desastre ambiental do Brasil, na bacia do Rio Doce completou um ano sem que praticamente nada se tenha feito, nem para reparar os prejuízos dos munícipes de Mariana diretamente afetados, nem como lição para endurecer a legislação ambiental.

No meio urbano brasileiro as condições se uso do solo são das mais críticas. Raros os municípios que tem sua ocupação ou planejamento urbano com base em adequado código de postura municipal. As praças públicas, parques e áreas verdes são preteridos em razão da especulação imobiliária.

As ocupações desordenadas predominam, sem o acompanhamento da infraestrutura adequada como água tratada e esgoto sanitário. Ao contrário, as condições de infiltração do solo são obstruídas com vias asfaltadas e construções de calcadas até nos quintais no entorno das residências.

Áreas alagadas ou pantanosas que deveriam ser destinadas a preservação e retenção de água são inicialmente invadidas por moradias irregulares e depois aterradas, transformando-se posteriormente em cenário de problemas sociais nas enchentes. Uma nova política de reordenamento territorial deve ser concebida e executada. Necessitamos tanto de reforma agrária como de reforma urbana.

Nas últimas eleições municipais os problemas ambientais não foram nem de longe preocupação de nossos candidatos a prefeitos e vereadores. Nada mais oportuno que focar de agora em diante, os prefeitos municipais como responsáveis e protagonistas das soluções ambientais no Brasil. Principalmente quando a maioria das prefeituras não cumpriu o prazo para o cumprimento da Política Nacional de Resíduos Sólidos e a sociedade continua a ser a crescente mina de rejeitos, com o consumo desenfreado.

Vamos aguardar os novos planos de desenvolvimento municipal. Principalmente se estarão de acordo com as orientações técnicas de nossos especialistas ambientais a fim de reduzir o abismo identificado pelos pesquisadores da UERJ. E torcer para que – mais uma vez – as nossas improrrogáveis soluções ambientais não fiquem “prá lá de Marrakesh”, literalmente.

Raimundo Nonato Brabo Alves

Pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental

Fontes:

http://g1.globo.com/natureza/noticia/2016/11/reunioes-globais-de-clima-sao-frustrantes-porque-estao-longe-da-vida-real-diz-cientista-brasileira.html

https://www.ecodebate.com.br/2014/11/10/pagamos-tanto-por-lixo-quanto-por-alimentos-artigo-de-raimundo-nonato-brabo-alves/

https://www.ecodebate.com.br/2015/03/09/o-solo-e-a-crise-de-agua-artigo-de-raimundo-nonato-brabo-alves/

https://www.ecodebate.com.br/2015/12/08/cria-se-escassez-para-gerar-demanda-artigo-de-raimundo-nonato-brabo-alves/

https://www.ecodebate.com.br/2013/09/06/o-consumo-desenfreado-e-incompativel-com-a-sustentabilidade-artigo-de-raimundo-nonato-brabo-alves/

 

Publicado em 11/11/2016 no Portal ECODEBATE

"Pra lá de Marrakesh, artigo de Raimundo Nonato Brabo Alves," in Portal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 11/11/2016,
https://www.ecodebate.com.br/2016/11/11/pra-la-de-marrakesh-artigo-de-raimundo-nonato-brabo-alves/.
A MANDIOCA DE TODOS OS DIAS

22 de abril é o dia da mandioca. 
Mas para os amazônidas, a mandioca é o pão nosso de cada dia.

 

Raimundo Brabo*

Na forma de farinha, com chibé e camarão, com pirão escaldado e peixe, com pirão de açaí, na farofinha com espetinhos de churrasco.

Orgulhosamente, o paraense se autodenomina de “papa-chibé”.

Imaginem se faltar farinha.

Há uma comoção regional, pelo fato de algumas pessoas não conseguirem sequer comer sem farinha de mandioca. Isso já ocorreu no século passado provocando enormes filas para se conseguir um quilo de farinha, como se fora um troféu. 

E o consumo diário de mandioca pelos amazônidas continua.

Na degustação da tapioquinha com café, do tacacá de todas as tardes, na maniçoba e pato no tucupi das confraternizações, do molho de tucupi com pimenta, na forma de bolos, pudins, sorvetes, broas e biscoitos.

A utilização da mandioca na forma mais diversificada e como alimento é particularidade dos paraenses, uma herança herdada de nossos ancestrais indígenas, cujo processo tecnológico de domínio da cultura vem desde a seleção do material genético de propagação para os plantios, até os processos de transformação em alimentos para o consumo humano e animal.

A seleção dos indígenas foi tão criteriosa que resultou em cultivares não venenosas para consumo in natura e até cultivares de alta concentração cianogênica, que só podem ser transformadas em alimentos após a trituração e torragem, para eliminação de sua toxicidade.
O Brasil é o berço de origem da mandioca para o mundo, um legado das populações indígenas para à moderna civilização. Posteriormente - com o intercambio dos colonizadores – a mandioca foi introduzida no continente africano e posteriormente no sudeste asiático.

Só existem na natureza duas espécies animais que na evolução são identificadas como agricultoras natas: as formigas e os térmitas, que cultivam um cogumelo, cujas secreções são a fonte de substâncias açucaradas que lhes servem de alimentos. Algumas formigas até são criadoras de pulgões, que também lhes oferecem essas doçuras.

O homem teve que aprender a cultivar as plantas e parece que nossos ancestrais amazônidas quando dominaram a mandioca como fonte de carboidratos na sua alimentação, não mais a abandonaram levando sempre umas manivas para multiplicação por onde quer que fosse a sua migração, semelhante às formigas que transportam sempre alguns inoculos do cogumelo (fungo), quando mudam de formigueiro.

A cultura da mandioca no Brasil é a sétima em área cultivada e a primeira em importância social, pela geração de renda e milhões de empregos, estando presente na agricultura de todos os estados brasileiros.

O Estado do Pará é o maior produtor do Brasil, com área cultivada de 300.000 de hectares e produção de 4,9 milhões de toneladas anuais. O consumo de mandioca no Pará é o mais diversificado do mundo, sendo o alimento de maior participação na culinária regional.

O dia a dia dos mandioqueiros se faz de limpar a roça, plantar, capinar, colher, descascar, ralar, prensar, peneirar, torrar, cozer, classificar, embalar, transportar e comercializar. Para outros pesquisar e ensinar.

De 21 a 25 de novembro deste ano, será realizado em Belém o XVII Congresso Brasileiro de Mandioca, com o tema “Sabores e Cheiros da Amazônia”, como reconhecimento do valor antropológico dessa nobre ultura em nossa região e no Brasil.

A mandioca é das mais importantes para a redução da fome de populações carentes na África, tanto que a Bill & Melinda Gates Foundation tem um relevante trabalho de pesquisa e fomento dessa cultura para elevar a produtividade, a qualidade e os nutrientes funcionais dessa raiz, para mitigar a tragédia da fome nesse continente.

A mandioca impressionou tanto a Bill Gates - que este ano foi eleito novamente o homem mais rico do mundo -, dado a importância por ele dispensada para a cultura desse tubérculo, como ferramenta de seu trabalho social, referindo-se com entusiasmo a esta dádiva da Natureza como “o mais interessante vegetal do mundo”.

Para brindar nossos clientes no dia da mandioca, a Embrapa Amazônia Oriental disponibiliza em seu site o livro “Cultura da Mandioca”, que trata de todos os assuntos referentes ao sistema de produção e de processamento da mandioca. O livro pode ser acessado gratuitamente no site da Embrapa.

* Pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, escritor e autor do blog Amazônia em Devaneios

Embrapa Amazônia Oriental

Telefone: (91) 3204-1099

Mais informações sobre o tema
Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC)
www.embrapa.br/fale-conosco/sac/


PESQUISADOR ALERTA SOBRE PERIGOS DA DEVASTAÇÃO AMBIENTAL

 

Raimundo Brabo, agrônomo da Embrapa, defende que toda a sociedade deve ter consciência da necessidade de mudança dos hábitos de consumo para evitar a destruição da Amazônia

As relações entre o desenvolvimento sustentável, mudanças climáticas e consumo foram temas discutidos em palestra realizada na sexta-feira (18), durante a programação da XII Semana Acadêmica de Comunicação da Universidade da Amazônia (Unama), que teve como tema "Ciência e Mídia". O evento teve a participação de Raimundo Brabo, engenheiro agrônomo e pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), e reuniu estudantes do curso de Comunicação Social. A Embrapa é uma empresa de inovação tecnológica focada na geração de conhecimento e tecnologia para a agropecuária brasileira.

Em entrevista ao LeiaJá, o pesquisador explicou que as mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global afetam a capital paraense e isso se reflete no aumento da temperatura. "As pessoas reclamam muito dos dias excessivamente quentes na região, isso não era natural. A nossa região era refrescada pelas chuvas da tarde. Costumo dizer que as chuvas e a floresta amazônica funcionam como um radiador, então a gente percebia que após a chuva da tarde a temperatura ficava amena. Hoje percebemos que essa interação vem reduzindo", informou.

O pesquisador acredita que é possível desenvolver estratégias a curto prazo para evitar o avanço do desmatamento na Amazônia. Para ele, é hora de pensar nas árvores não só como um benefício ambiental, mas no que elas poderão proporcionar futuramente.

De acordo com Raimundo Brabo, dois passos são fundamentais para que se consiga reduzir o desmatamento na Amazônia. O primeiro é continuar fazendo o monitoramento das áreas desmatadas e divulgar os indicadores de desmatamento para que a sociedade tenha conhecimento do que vem ocorrendo. Em segundo lugar, estimular as políticas públicas para o reflorestamento de locais que foram desmatados. "Acho que chegou o momento de pensarmos na árvore não só nos benefícios ambientais que ela no futuro poderá nos trazer, mas também no produto que ela pode gerar que é de interesse econômico para as futuras gerações", afirmou o pesquisador.

O pesquisador destacou que a sustentabilidade é um caminho para evitar a devastação ambiental, mas a responsabilidade é de toda sociedade. "É necessário que a sociedade tenha consciência dessa responsabilidade com relação à sustentabilidade ambiental. O nosso grande desafio é que estamos consumindo os recursos disponíveis na Terra de uma maneira muito predatória, com uma rapidez como se tivéssemos realmente a intenção de acabá-los. É importante que a sociedade mude o seu padrão de consumo. Temos que pensar em perenizar esses recursos para as futuras gerações por isso a importância de nos preocuparmos com essas políticas de reposição da vegetação que foi perturbada", contou.

Brabo apresentou índices relevantes que foram publicados durante a COP 22, convenção de mudanças climáticas da ONU (Organizações das Nações Unidas), realizada em Marrakesh, no Marrocos. Na conferência, ficou estabelecido o compromisso de redução da emissão de gases poluentes para tentar minimizar o aquecimento global. “É preciso pensar globalmente e agir localmente, pois todas as ações humanas comprometem o meio ambiente”, disse Brabo.

Dados das universidades da Flórida e de Hong Kong apontam que mudanças climáticas alteraram 82% dos principais processos ecológicos existentes. “As mudanças climáticas já impactaram todos os aspectos da vida na Terra, o que significa que todos os processos ecológicos, ambientais, e tudo aquilo com que interagimos, como solo, água, plantas, animais, já foi modificado”, informou o pesquisador.

Também foi divulgado que, desde a chegada dos imigrantes portugueses, de 1550 a 1970 o desmatamento não passava de 1%, segundo a Organização Não Governamental Greenpeace. Aproximadamente 50 anos após esse período, 18% da Amazônia brasileira foi desmatada, sem contar áreas da Amazônia peruana, boliviana e das Guianas. Apenas 7,26% de mata atlântica continua conservada, informam a fundação SOS Mata Atlântica e o INPE, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.

Segundo Raimundo Brabo, a formação de um centímetro de solo agrícola, o qual permite a produção de alimentos para a subsistência, pode levar mil anos, e pode ser destruído em apenas uma safra. O manejo inadequado do solo, informou o pesquisador, está fazendo com que seis milhões de hectares de terras caminhem para a desertificação. E vinte e quatro bilhões de camada arável são perdidas prejudicando a produção agrícola e desenvolvimento sustentável, assinalou.

“Estimativas dão conta que entre 2030 e 2040, o Polo Norte pode ficar completamente livre de gelo marinho nos meses de verão”, disse. Nos próximos 30 anos, 45 bilhões de toneladas métricas de metano e dióxido de carbono chegarão à atmosfera quando o permafrost (mistura de terra, solo e gelo) degelar, observou Brabo.

Para Brabo, a sustentabilidade é incompatível com o crescimento econômico que se propõe nas ações governamentais. “Não se pode cobrar do governo ações imediatas, quando o perfil da população é claramente consumista, é preciso mudar o perfil enquanto consumidor, para obter-se soluções a curto prazo para os problemas ambientais”, destacou.

Outro caminho sustentável apontado pelo pesquisador seria a utilização de novas ciências, como a biomimética, ciência que imita a vida, e a geoengenharia, que são soluções para o futuro através de árvores artificias (sintéticas) para realizarem fotossíntese, torres eólicas etc. “Também há que se falar na substituição da reciclagem por alternativas biodegradáveis, como a cultura da mandioca, pois a reciclagem é um processo que demanda mais energia do que o primeiro ciclo de produção de um produto”, concluiu.

Com informações de Raiany Pinhyeiro e Carol Boralli.

 

FONTE: http://www.leiaja.com/noticias/2016/11/25/pesquisador-alerta-sobre-perigos-da-devastacao-ambiental/


[EcoDebate] Essa expressão era muito popular na década de 1970 e significava que quem estava “prá lá de Marrakesh” estava meio atabalhoado ou perturbado do juízo. Lembrei a expressão por ler as matérias que tratam da reunião da COP-22, a conferência do clima da ONU, que se iniciou nesta segunda feira 07 de novembro em Marrakesh, no Marrocos. Essa expressão caiu de uso. Hoje o Marrocos é uma rota turística de alta demanda, com hotéis suntuosos.

Chamou meu interesse a manchete sobre o relatório dos pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UERJ) que será apresentado na referida conferência, alertando prefeitos das cidades brasileiras para as consequências dramáticas do aquecimento global.

Segundo o que recomendam os pesquisadores no relatório, “os municípios que não mudarem a forma com que lidam com água, transportes e gestão de lixo e resíduos enfrentarão problemas como desabastecimento e energia, hospitais superlotados, inundações e desmoronamentos, com impactos mais fortes nas regiões mais pobres”.

Nada mais oportuno que chamar a atenção dos gestores municipais para os problemas ambientais que no final das contas oneram os orçamentos das prefeituras para minimizar seus impactos, sem promover bem-estar aos munícipes. Afinal segundo os mesmos pesquisadores, foram inúmeras as conferências realizadas no campo da diplomacia, porém decepciona o abismo entre as discussões globais sobre o clima e a “vida real” das cidades brasileiras.

A preocupação com a água é imperiosa. Neste item extrapola a responsabilidade da municipalidade. Escrevi sobre esse tema logo após o desastre de Mariana:

Em comentário da Lei 9433/1997 que instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos, Paulo Affonso Leme Machado em seu livro Recursos Hídricos, Direito Brasileiro e Internacional afirma: “o uso da água não pode ser apropriado por uma só pessoa, física ou jurídica, com exclusão absoluta dos outros usuários em potencial; o uso da água não pode esgotar o próprio bem utilizado. A concessão ou a autorização (ou qualquer tipo de outorga) do uso da água deve ser motivada ou fundamentada pelo gestor público”.

Paulo Affonso afirma ainda na página 26 do referido livro: “O poder Público não pode agir como um “testa-de-ferro” de interesses de grupos para excluir a maioria dos usuários do acesso qualitativo e quantitativo às águas. Seria um aberrante contrassenso o domínio público “aparente” das águas, para privatizá-la, através de concessões e autorizações injustificadas do Governo Federal e dos Governos Estaduais servindo ao lucro de minorias. A água é um direito humano, não um produto a ser comercializado”.

Será que a legislação vem sendo aplicada ou a realidade vem se contrapondo ao que propõe Paulo Affonso e se transformando num “aberrante contrassenso”. A poluição recente do Rio Doce expõe o Brasil ao mundo o quão atabalhoada vem sendo a política de administração de nossos recursos hídricos

Mais de 300 mil cidadãos de maneira trágica estão submetidos a humilhante disputa de míseros litros de água para matar a sede, ou ao pagamento de preços aviltados por maior porção de “água mineral” para o atendimento diário de suas necessidades básicas.

O gerenciamento do recurso água deve ser responsabilidade dos municípios, estados e da União. O maior desastre ambiental do Brasil, na bacia do Rio Doce completou um ano sem que praticamente nada se tenha feito, nem para reparar os prejuízos dos munícipes de Mariana diretamente afetados, nem como lição para endurecer a legislação ambiental.

No meio urbano brasileiro as condições se uso do solo são das mais críticas. Raros os municípios que tem sua ocupação ou planejamento urbano com base em adequado código de postura municipal. As praças públicas, parques e áreas verdes são preteridos em razão da especulação imobiliária.

As ocupações desordenadas predominam, sem o acompanhamento da infraestrutura adequada como água tratada e esgoto sanitário. Ao contrário, as condições de infiltração do solo são obstruídas com vias asfaltadas e construções de calcadas até nos quintais no entorno das residências.

Áreas alagadas ou pantanosas que deveriam ser destinadas a preservação e retenção de água são inicialmente invadidas por moradias irregulares e depois aterradas, transformando-se posteriormente em cenário de problemas sociais nas enchentes. Uma nova política de reordenamento territorial deve ser concebida e executada. Necessitamos tanto de reforma agrária como de reforma urbana.

Nas últimas eleições municipais os problemas ambientais não foram nem de longe preocupação de nossos candidatos a prefeitos e vereadores. Nada mais oportuno que focar de agora em diante, os prefeitos municipais como responsáveis e protagonistas das soluções ambientais no Brasil. Principalmente quando a maioria das prefeituras não cumpriu o prazo para o cumprimento da Política Nacional de Resíduos Sólidos e a sociedade continua a ser a crescente mina de rejeitos, com o consumo desenfreado.

Vamos aguardar os novos planos de desenvolvimento municipal. Principalmente se estarão de acordo com as orientações técnicas de nossos especialistas ambientais a fim de reduzir o abismo identificado pelos pesquisadores da UERJ. E torcer para que – mais uma vez – as nossas improrrogáveis soluções ambientais não fiquem “prá lá de Marrakesh”, literalmente.

Raimundo Nonato Brabo Alves

Pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental

Fontes:

http://g1.globo.com/natureza/noticia/2016/11/reunioes-globais-de-clima-sao-frustrantes-porque-estao-longe-da-vida-real-diz-cientista-brasileira.html

https://www.ecodebate.com.br/2014/11/10/pagamos-tanto-por-lixo-quanto-por-alimentos-artigo-de-raimundo-nonato-brabo-alves/

https://www.ecodebate.com.br/2015/03/09/o-solo-e-a-crise-de-agua-artigo-de-raimundo-nonato-brabo-alves/

https://www.ecodebate.com.br/2015/12/08/cria-se-escassez-para-gerar-demanda-artigo-de-raimundo-nonato-brabo-alves/

https://www.ecodebate.com.br/2013/09/06/o-consumo-desenfreado-e-incompativel-com-a-sustentabilidade-artigo-de-raimundo-nonato-brabo-alves/

 

Publicado em 11/11/2016 no Portal ECODEBATE

"Pra lá de Marrakesh, artigo de Raimundo Nonato Brabo Alves," in Portal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 11/11/2016,
https://www.ecodebate.com.br/2016/11/11/pra-la-de-marrakesh-artigo-de-raimundo-nonato-brabo-alves/.

 

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

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BEM DITOS POPULARES - Parte 1

Na metade do século vinte,

Em um pacato vilarejo do Norte,

Nasceu o menino Caetano,

Descendente de muita sorte,

De autêntico e bravo cabano.

 

O varão ainda estava chorando,

Com o umbigo levado a corte,

Quando sua avó foi clamando:

- “Prefiro chorar tua morte,

Que chorar tua sorte”.

 

A velha tinha na mente,

Que seu neto um dia

Seria gente grande”,

Naquelas remotas pradarias,

E mesmo com toda a oração,

Por sua felicidade temia.

 

Caetano ia crescendo,

Ouvindo ditos como lição,

Que pareciam não ter sentido,

Para aquela ingênua criança,

De trejeitos quase inibido.

 

Vovó queria para Caetano,

Além de boa formação,

Educação caprichosa,

De grande ser humano,

De qualidades virtuosas.

Que onde fosse sua moradia,

Travasse com a vizinhança,

Grande amizade e parceria,

Afinal uma ovelha mansa,

Mama na sua e na alheia.

 

Disse-lhe vovó: - se queres filho,

Ser mestre de grandes obras,

Te encosta em boas árvores,

Que delas terás sombras”.

 

- Concentre-se no ensino,

Das pessoas mais idosas,

Para poder se educar,

Afinal, o costume de casa

Vai a praça, sem se notar.

 

- Ande em boa companhia,

Zele sempre pelo seu nome,

Nunca se esqueça  que:

Quem com porcos,

 Se mistura, farelo come.

 

E continuou vovó,

Discorrendo um rosário,

Capitulando a Caetano aflito:

- Fazer mal pra alguém,

Não faz nenhum sentido,

Quem com ferro fere,

Com ferro será ferido.

 

 

- Não faça ao próximo, maldade,

Desatino ou desgosto,

Afinal, ninguém cuspa ao ar,

Que não lhe venha ao rosto.

 

- Talião não mais vigora. O que vale é o perdão.

Há muito meu filho, caiu por terra a lei  de antigamente,

Olho por olho, dente por dente.

 

Ao atingir Caetano a idade escolar,

Vovó tomou a nobre atitude:

- Filho, na escola te matriculei,

Porque em terra de cego,

Quem tem um olho é rei.

 

Vovó queria que Caetano

Se preparasse pra vida,

Segundo a sua experiente visão,

Capaz de enfrentar dura jornada,

E saber no futuro com precisão,

Com quantos paus se faz uma jangada.

 

Caetano algumas vezes,

Curtia uma danada “preguiça”,

Quando perdia a hora da aula

 Na ponta da língua respondia:

\- Vovó não esquente comigo,

Pois como diz o velho ditado,

Quem corre cansa, quem anda alcança.

 

- Olha meu filho, falou vovó, a Caetano quase em segredo: -Não vá desistir da luta, não há vida fácil, é dura a labuta,

Não esqueça que Deus só ajuda,

A quem cedo madruga.

 

Caetano foi hostilizado por não ser bom de bola.

Disse-lhe então sua avó: - tenha certeza meu filho, no campeonato da vida,

Você será grande artilheiro,

Pois os últimos serão os primeiros.

 

 Caetano retrucou aborrecido:

- Não tolero gozação da turma vovó,

Dizem que na disputa da bola,

Sou mais parado que água de igapó.

 

- Não se importe, é inveja

 Dessa horda de matutos,

Afinal uma árvore só se apedreja,

Quando dá bons frutos.

 

- Não se intimide,

É prepotência da corja,

Esse faz e acontece, pois dizem que,

Quanto mais a gente se abaixa,

Mais a vergonha aparece.

 

Responde Caetano  mais ríspido:

-Vou a forra com o biltre covarde,

Creio que comigo ele não pode,

Todos que me dão força dizem,

Cão que muito ladra não morde.

Se preciso vou aos tapas com esse mesquinho,

Pois passarinho que muito canta, suja no ninho.

 

Falou vovó a Germano:

- lute com argumentos, não vá criar inimizades,

Afinal quem semeia vento,

Colhe tempestades.

 

- Já lhe havia dito na infância,

Uma ovelha mansa,

Mama na sua e na alheia,

Seja cordial com todos,

Em especial com a vizinhança.

 

Caetano fez de  Afrânio,

Seu inseparável parceiro.

Vovó logo notou a mudança:

- Misturando-se com essa ralé,

Você vai ouvir muitas vezes,

Diz-me com quem andas,

Que eu te direi quem és.

 

Vovó reprovou a má companhia,

Resmungando sempre a Caetano:

- Olha o que estás a fazer,

Se não queres ser vagabundo,

É bom que venhas logo a saber

Que uma ovelha má,

Põe o rebanho a perder.

 

- Não vá entregar-se ao vício,

E lançar seu futuro morro abaixo,

Pois como diz o ditado:

Passarinho que voa com morcego,

Dorme pendurado de cabeça pra baixo.

 

Caetano já homem feito,

Decidiu ganhar o mundo,

Juntou todos os seu trapos,

Pois sabia desde pequeno,

que cobra que não anda,

Não engole sapos.

 

Um dia revelou a vovó,

Que seria homem rico,

Coberto de muito ouro,

Pois teve em sonho explícito,

A indicação de um tesouro.

Disse-lhe vovó cautelosa:

- Nem tudo que reluz é ouro,

Procure filho quem sabe,

Algo mais duradouro.

 

Discordando do sábio conselho,

Caetano foi para o garimpo.

Vovó não lhe deu nenhum dote,

Limitou-se apenas a dizer-lhe:

 

- Não vá com muita sede ao pote.

BEM DITOS POPULARES - Parte 2

Chegando ao garimpo,

Ouviu de seus pares de sina:

- Não faz de tua lavra,

Barranco muito profundo,

Pois dizem os mais entendidos,

Que pato novo não mergulha fundo.

 

- Cava com fé tua cova,

Se não a rocha te engole,

Aqui a vida só é dura,

Para quem é mole.

 

- Arma teu forte barraco,

Prevendo a chuva certeira,

Se não cair de dia, cai de noite,

Não vai tapar o sol com a peneira.

 

- Arma o mosquiteiro,

Boca amarrada acima do chão,

Antes que a noite escureça,

Foge do mosquito da febre tersã,

Que mata de frio e tremedeira.

 

- Se em veio de ouro “bamburrar”,

Picareta tinindo na rocha tosca

Não te esqueça do dito popular,

Boca fechada não entra mosca.

- Se de recaídas da febre escapar,

Livra-te do cruel peão olheiro,

Que teu amigo irá se revelar,

Mas que não passa de lobo,

Em pele de cordeiro.

 

- O ultimo que nele confiou,

Aqui não mais está, escafedeu-se,

Dizem por todo o garimpo

A boca pequena que a onça comeu.

 

Caetano com todo o afinco,

Garimpava sua árdua labuta,

Não queria retornar para os seus,

Como um zé ninguém,

De bolso furado sem nenhum vintém.

 

O tempo corria lento,

E Caetano não via dia após dia,

O tão sonhado filão de riqueza,

Que pudesse cobrir,

Suas parcas despesas.

 

As pepitas que bateava,

Mal suas dívidas pagava.

Depois de muito suor e desencanto,

De que valia tanto esforço,

Pensou consigo mesmo em pranto,

Cobrir um santo, para descobrir outro.

 

Mais pobre do que partiu,

Desistiu da incerta aventura,

Depois de muito suor e sacrifício,

Restou-lhe apenas desventura.

 

De volta ao seu vilarejo, Caetano ouviu de vovó:

- Não perca a esperança, a vida é mesmo assim,

De altos e baixos, de alternâncias, Mas depois da tempestade, vem sempre a bonança.

 

Caetano decidiu então aprender vários ofícios,

Pescador, carpinteiro, pedreiro, eletricista, pintor soldador, funileiro.

De tantos aperfeiçoamentos,

Caetano ficou conhecido,

Como homem de sete instrumentos.

Resolvia os “pepinos” de todos,

Pelos quatro cantos do vento.

 

Caetano com sacrifício,

Armou seu próprio barraco,

Com barro e madeira roliça,

Cobertura de palha, casa de taipa,

Duas águas, nada de tacaniça,

Obra de parca beleza, rústica,

Porém não foi por preguiça.

 

Apesar de ser carpinteiro,

Fez jús ao que todos dizem:

“Que em casa de ferreiro,

O espeto é de pau.

 

Numa festa de São João,

Caetano avistou Poliana,

Uma linda morena,

De porte pequeno, franzina,

Mas de andar provocante,

Daquela ginga faceira,

De quebrar as cadeiras,

De cabocla brejeira.

 

Foi paixão a primeira vista,

Mesmo não correspondida,

Pois que a bela donzela,

Não lhe deu nenhuma pista.

 

Pois para a jovem Poliana,

Que vivia feliz e contente,

“O que os olhos não vêem,

O coração não sente.

 

O namoro demorou a iniciar,

A conquista foi extenuante,

Já que em matéria de sedução,

Caetano era principiante.

 

Sentindo-se inferiorizado

Diante da beleza de Poliana,

Teve um incentivo de sua avó:

 - Sem preconceito, não acontece,

Pois quem ama o feio,

Bonito lhe parece.

 

Se você gosta da moça,

Fale de sua paixão, de seu amor,

Demonstre-lhe profunda ternura,

Não desista de sua conquista,

Afinal, água mole em pedra dura,

Tanto bate até que fura.

 

Caetano conquista a namorada,

Vencendo afinal a disputa,

Da morena mais cobiçada,

A mais faceira, a mais impoluta,

Que o vilarejo viu ser criada.

 

Poliana deixava-lhe atordoado,

Com a cabeça nas nuvens,

Profundamente apaixonado,

Pois que ela era um grande partido,

Como todos diziam no vilarejo,

Muita mandioca, para o seu roçado.

 

Não tardou o pensamento,

De lhe pedir em casamento,

Aquela donzela faceira,

Sem dotes, de muitas prendas,

De utilidade caseira.

 

Caetano selou sua sorte,

Com casamento eminente.

Vovó desejou-lhe boa sorte:

- um lar de muitos filhos,

Com rancho farto diariamente,

Uma casa cheia de mobílias,

Afinal quem não pode com o pote,

Não pega na rodilha.

 

Caetano então se casou,

E decidiu fixar moradia,

Em seu barraco no vilarejo,

Vizinho ao de um velho primo,

Que há muito lhe deu um conselho,

- Pedra que muito rola, não cria limo.

 

A medida que a família crescia,

Caetano trabalhava dobrado,

Dançando conforme a música,

E de Poliana ouvia sempre um ditado,

- Vá devagar meu amado,

Cuidado com o andor,

Que o santo é de barro.

 

Caetano além dos “bicos” incertos

Plantou seu próprio roçado,

Livrou o “pirão” dos filhos,

Do insuficiente punhado.

No interior muito se comenta,

Que em tempo de aperto,

Macaco come pimenta.

 

Caetano sempre que podia,

Guardava algum tostão,

E de quando em vez,

Comprava uma vaca,

De seu antigo patrão.

 

Pois tinha Caetano em mente,

Que dinheiro não dá em penca”,

E riqueza não vem a galope”,

Para quem só usa trapo,

Pois é de grão em grão,

Que a galinha enche o papo.

 

Como humilde agricultor,

Caetano sonhava ser fazendeiro,

Por isso trabalhava anos a fio,

Aplicando sempre as sobras,

Em fundos de rendimentos certeiros.

Aprendeu que na vida,

Quanto mais vacas, mais bezerros.

 

Também era muito caridoso,

Com todos os necessitados,

Que em sua porta batiam.

Sempre após o agradecimento,

Caetano dizia em tom de gracinha:

- Você não me deve nada seu primo,

Quem tem mandioca no roçado,

Não me deve farinha.

 

As visitas de Poliana,

A quase toda vizinhança,

Deixavam Caetano  furioso,

E com a pulga atrás da orelha,

O que o fazia repetir a Poliana,

O velho ditado de outrora:

- “Boa romaria faz,

Quem na sua casa vive em paz”.

 

Caetano tinha receio,

Da recaída de Poliana,

Que namorou no passado,

Um amigo seu de cabana.

Poliana lhe disse então:

- Que ciúme, coitadinho, pois fique sabendo,

Que “águas passadas não movem moinho.

 

Eis que Vovó sugere a Caetano,

- A cortar o mau pela raiz.

E para a vizinhança fechar a sua porta,

Pois o costume do cachimbo

é que deixa a boca torta.

 

Caetano chegou a pensar,

Desfazer seu casamento.

Vovó disse-lhe então:

- onde está seu sentimento?,

Mulher bonita, é como alça de caixão

Um larga vem outro e põe a mão.

 

Viveu Caetano,

Com Poliana a parir,

Um filho a cada ano,

Como se diz no ditado popular,

Um no papo, um no braço,

Outro debaixo do sovaco.

 

Cada filho que crescia,

Assumia uma tarefa do campo,

Capinar a roça, ralar a mandioca,

Torrar a farinha, alimentar todas as crias,

E garantir para a família,

O sustento de todos os dias.

E assim viveu Caetano,

Tendo uma prole numerosa,

Que fez por muitos anos,

Poliana feliz e orgulhosa.

 

 

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