CONFISSÃO DE PREDADOR

 

 

De nada valeu Senhor!

Ter erguido mil catedrais,

Se eu destruí pelo menos um,

De Vossos santuários naturais!

 

Por ambição e vaidade pessoal,

Transformei esplêndidas paisagens,

Em ocioso parque condominial,

De norte a sul deste vasto litoral.

Aterrei margem de rio, igapó e manguezal,

Hoje ao invés da estação de veraneio,

Temos chuva, inundação e vendaval.

 

Perdoa-me Senhor a prepotência!

Inundei exuberante vale florestal,

Afogando o indefeso reino animal.

Morros os desmatei, até a margem de rios,

Agora não há mais peixes,

Meu barco só navega,

Quando vez por outra, o rio enche.

O rio que eu pescava virou praia,

É estação de intrépidos turistas,

Que longe do litoral não podem matar,

A saudade do mar no verão.

 

Perdoa Senhor minha demência!

Derrubei milhares de árvores sem clemência,

Pior, desperdicei metade da madeira,

Não pus sequer uma semente a germinar,

Hoje, onde havia floresta parece o mar,

Avista-se só mecega, ao vento a balançar.

Perdão Senhor! Mas eu provoquei,

Muita água de morro abaixo,

E fogo de morro acima,

Do modo que estou planificando o globo,

Se não mudar qual será o futuro?

Não posso prever minha sina.

 

Perdão Senhor!

Para manter meu espetacular aquário,

Com a arrogância de minha casa ornamentar,

Quebrei o elo de muitas cadeias,

De longínquas regiões, que jamais um dia,

Eu terei o privilégio de visitar.

Quanto mais poder, maior minha ambição.

Criei meu museu particular,

De preferência com espécies raras,

A custa de animais em extinção.

 

Perdoa-me Senhor!

Mas devo mesmo me penitenciar,

Quase extingui elefantes pelo marfim,

Jacarés e focas, por peles a traficar.

Caçando baleias, não poupei nem matrizes,

Que estavam a procriar.

Perdão Senhor!  Mas minha ação predadora,

Não ficou restrita apenas ao continente,

Estendeu-se por todo lugar.

Com minha rede de arrasto,

Fui pescador seletivo,

Peixe sem valor econômico,

Devolvia morto ao mar.

 

 

Perdão Senhor!

Mas a rapidez com que planifico a Terra,

Com erosão, assoreamentos, aterros,

Desmatamentos, queimadas, calor em exaustão,

Derretimento de geleiras polares,

Receio não haver tectonismo,

Que possa reverter a tempo,

Tamanha destruição em cadeia.

 

 

Não sei se haverá indulgência,

Que por tamanho pecado haja perdão.

Mas por toda vida, sem a menor clemência,

Servi a milhões de meus semelhantes,

Somente restos de minha farra nababesca.

Catando lixo em milhares de lixões a céu aberto,

Como última alternativa de sobrevivência,

Diariamente eu os via com indiferença,

Dividindo com abutres, um cenário de inferno.

 

De nada valeu Senhor!

Ter erguido mil catedrais,

Se eu destruí pelo menos um,

De Vossos santuários naturais!

A SOCIEDADE PLASTIFICADA

 

 

 Quando eu era criança, lembro que minha família não produzia lixo. Também não havia supermercados, fazíamos compras no armazém do "Seu Lauro". Tudo que fosse sólido, era embalado em "papel de embrulho": açúcar, feijão, arroz, charque, sal, banha e manteiga. Para compra de óleo e querosene, levávamos vidros de casa. Carnes, peixes e frutas comprados no mercado central, eram embalados em folhas de guarumã, uma planta silvestre. Tudo que comprávamos, "estufava" nossa sacola de lona, que durava anos.

Havia poucos enlatados e as embalagens descartadas eram transformadas em brinquedos das crianças ou serviam de matéria prima para os "funileiros", que as transformavam em lamparinas, ralos, pás e outros utensílios domésticos. Quanto aos vidros todos eram retornáveis. As garrafas de cervejas e refrigerantes eram trocadas no abastecimento. Litros e vidros pequenos eram vendidos ao "garrafeiro".

Como minha família era numerosa e os recursos eram limitados, não havia resíduos orgânicos, exceto casca de algumas frutas e talos de verduras que complementavam a ração de nossas galinhas criadas soltas no terreiro. O único lixo no quintal eram as folhas secas das plantas de meu pai, como mangueiras, coqueiros e gravioleiras que eram varridas, amontoadas e queimadas. Os eletrodomésticos como fogões e geladeiras, feitos para durar anos, eram embalados em papel e madeira. Assim era o modo de vida de todos os meus vizinhos. Tanto que não havia no bairro, serviço de coleta de lixo da prefeitura.

Hoje, com uma família três vezes menor que a de meu pai, o lixo com que sobrecarregamos o sistema de limpeza da prefeitura é três vezes maior em embalagens descartáveis, que os produtos que de fato consumimos. São garrafas PET, latinhas de alumínio, frascos plásticos de material de limpeza, condimentos, produtos de higiene, remédios, isopor e uma infinidade de sacos plásticos. São dois a três volumes de 50 litros, três vezes por semana. Haja plástico em nossas vidas. Somos a "moderna sociedade plastificada".

Para reduzir meu peso de consciência, tenho separado plástico e alumínio em sacos que os catadores os recolhem em frente a minha casa. Mas não podemos nos vangloriar com estatísticas de lixo reciclável, principalmente alumínio, comparando-nos com Japão e outras nações, mantendo esse sistema insalubre de catadores em lixões a céu aberto. A solução tem que envolver a indústria que gasta mais recursos e energia com as embalagens, que com os produto de interesse econômico.

Mudar a legislação para exigir que o fracionamento não seja inferior a 1 litro para determinados produtos. Para outros, exigir o uso de embalagens retornáveis. Responsabilizar as empresas pela recuperação de suas embalagens descartáveis. As prefeituras devem estabelecer parcerias com as empresas e organizar cooperativas de recicladores, tendo como base a implantação da coleta seletiva do lixo envolvendo toda a sociedade. Tenho convicção que a relação custo/benefício de uma nova logística de tratamento de nosso lixo seria promissora, tanto para a economia como para o meio ambiente.

 

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