MARÉ MANSA

Levo a vida,

Como maré de lua cheia.

De noite, lava a praia,

De manhã, não há pegadas na areia.

 

Cada dia,

Melhor que o anterior.

Porque apostar no amanhã,

Que pertence a meu Senhor?

 

Eta vida de maré,

Um dia é maré alta,

Outro dia, baixa maré.

 

Não importa,

Vida é assim mesmo,

É que nem vida de ator,

Um dia interpreta o rei,

Outro mendigo ou doutor.

 

Levo a vida,

Empenhando esses papeis,

Entre vícios e trejeitos,

Até que eu saia um dia ,

Deste cenário de imperfeitos.

PRA LÁ DE MARRAKESH

[EcoDebate] Essa expressão era muito popular na década de 1970 e significava que quem estava “prá lá de Marrakesh” estava meio atabalhoado ou perturbado do juízo. Lembrei a expressão por ler as matérias que tratam da reunião da COP-22, a conferência do clima da ONU, que se iniciou nesta segunda feira 07 de novembro em Marrakesh, no Marrocos. Essa expressão caiu de uso. Hoje o Marrocos é uma rota turística de alta demanda, com hotéis suntuosos.

Chamou meu interesse a manchete sobre o relatório dos pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UERJ) que será apresentado na referida conferência, alertando prefeitos das cidades brasileiras para as consequências dramáticas do aquecimento global.

Segundo o que recomendam os pesquisadores no relatório, “os municípios que não mudarem a forma com que lidam com água, transportes e gestão de lixo e resíduos enfrentarão problemas como desabastecimento e energia, hospitais superlotados, inundações e desmoronamentos, com impactos mais fortes nas regiões mais pobres”.

Nada mais oportuno que chamar a atenção dos gestores municipais para os problemas ambientais que no final das contas oneram os orçamentos das prefeituras para minimizar seus impactos, sem promover bem-estar aos munícipes. Afinal segundo os mesmos pesquisadores, foram inúmeras as conferências realizadas no campo da diplomacia, porém decepciona o abismo entre as discussões globais sobre o clima e a “vida real” das cidades brasileiras.

A preocupação com a água é imperiosa. Neste item extrapola a responsabilidade da municipalidade. Escrevi sobre esse tema logo após o desastre de Mariana:

Em comentário da Lei 9433/1997 que instituiu a Política Nacional de Recursos Hídricos, Paulo Affonso Leme Machado em seu livro Recursos Hídricos, Direito Brasileiro e Internacional afirma: “o uso da água não pode ser apropriado por uma só pessoa, física ou jurídica, com exclusão absoluta dos outros usuários em potencial; o uso da água não pode esgotar o próprio bem utilizado. A concessão ou a autorização (ou qualquer tipo de outorga) do uso da água deve ser motivada ou fundamentada pelo gestor público”.

Paulo Affonso afirma ainda na página 26 do referido livro: “O poder Público não pode agir como um “testa-de-ferro” de interesses de grupos para excluir a maioria dos usuários do acesso qualitativo e quantitativo às águas. Seria um aberrante contrassenso o domínio público “aparente” das águas, para privatizá-la, através de concessões e autorizações injustificadas do Governo Federal e dos Governos Estaduais servindo ao lucro de minorias. A água é um direito humano, não um produto a ser comercializado”.

Será que a legislação vem sendo aplicada ou a realidade vem se contrapondo ao que propõe Paulo Affonso e se transformando num “aberrante contrassenso”. A poluição recente do Rio Doce expõe o Brasil ao mundo o quão atabalhoada vem sendo a política de administração de nossos recursos hídricos

Mais de 300 mil cidadãos de maneira trágica estão submetidos a humilhante disputa de míseros litros de água para matar a sede, ou ao pagamento de preços aviltados por maior porção de “água mineral” para o atendimento diário de suas necessidades básicas.

O gerenciamento do recurso água deve ser responsabilidade dos municípios, estados e da União. O maior desastre ambiental do Brasil, na bacia do Rio Doce completou um ano sem que praticamente nada se tenha feito, nem para reparar os prejuízos dos munícipes de Mariana diretamente afetados, nem como lição para endurecer a legislação ambiental.

No meio urbano brasileiro as condições se uso do solo são das mais críticas. Raros os municípios que tem sua ocupação ou planejamento urbano com base em adequado código de postura municipal. As praças públicas, parques e áreas verdes são preteridos em razão da especulação imobiliária.

As ocupações desordenadas predominam, sem o acompanhamento da infraestrutura adequada como água tratada e esgoto sanitário. Ao contrário, as condições de infiltração do solo são obstruídas com vias asfaltadas e construções de calcadas até nos quintais no entorno das residências.

Áreas alagadas ou pantanosas que deveriam ser destinadas a preservação e retenção de água são inicialmente invadidas por moradias irregulares e depois aterradas, transformando-se posteriormente em cenário de problemas sociais nas enchentes. Uma nova política de reordenamento territorial deve ser concebida e executada. Necessitamos tanto de reforma agrária como de reforma urbana.

Nas últimas eleições municipais os problemas ambientais não foram nem de longe preocupação de nossos candidatos a prefeitos e vereadores. Nada mais oportuno que focar de agora em diante, os prefeitos municipais como responsáveis e protagonistas das soluções ambientais no Brasil. Principalmente quando a maioria das prefeituras não cumpriu o prazo para o cumprimento da Política Nacional de Resíduos Sólidos e a sociedade continua a ser a crescente mina de rejeitos, com o consumo desenfreado.

Vamos aguardar os novos planos de desenvolvimento municipal. Principalmente se estarão de acordo com as orientações técnicas de nossos especialistas ambientais a fim de reduzir o abismo identificado pelos pesquisadores da UERJ. E torcer para que – mais uma vez – as nossas improrrogáveis soluções ambientais não fiquem “prá lá de Marrakesh”, literalmente.

Raimundo Nonato Brabo Alves

Pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental

Fontes:

http://g1.globo.com/natureza/noticia/2016/11/reunioes-globais-de-clima-sao-frustrantes-porque-estao-longe-da-vida-real-diz-cientista-brasileira.html

https://www.ecodebate.com.br/2014/11/10/pagamos-tanto-por-lixo-quanto-por-alimentos-artigo-de-raimundo-nonato-brabo-alves/

https://www.ecodebate.com.br/2015/03/09/o-solo-e-a-crise-de-agua-artigo-de-raimundo-nonato-brabo-alves/

https://www.ecodebate.com.br/2015/12/08/cria-se-escassez-para-gerar-demanda-artigo-de-raimundo-nonato-brabo-alves/

https://www.ecodebate.com.br/2013/09/06/o-consumo-desenfreado-e-incompativel-com-a-sustentabilidade-artigo-de-raimundo-nonato-brabo-alves/

 

Publicado em 11/11/2016 no Portal ECODEBATE

"Pra lá de Marrakesh, artigo de Raimundo Nonato Brabo Alves," in Portal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 11/11/2016,
https://www.ecodebate.com.br/2016/11/11/pra-la-de-marrakesh-artigo-de-raimundo-nonato-brabo-alves/.
A MANDIOCA DE TODOS OS DIAS

22 de abril é o dia da mandioca. 
Mas para os amazônidas, a mandioca é o pão nosso de cada dia.

 

Raimundo Brabo*

Na forma de farinha, com chibé e camarão, com pirão escaldado e peixe, com pirão de açaí, na farofinha com espetinhos de churrasco.

Orgulhosamente, o paraense se autodenomina de “papa-chibé”.

Imaginem se faltar farinha.

Há uma comoção regional, pelo fato de algumas pessoas não conseguirem sequer comer sem farinha de mandioca. Isso já ocorreu no século passado provocando enormes filas para se conseguir um quilo de farinha, como se fora um troféu. 

E o consumo diário de mandioca pelos amazônidas continua.

Na degustação da tapioquinha com café, do tacacá de todas as tardes, na maniçoba e pato no tucupi das confraternizações, do molho de tucupi com pimenta, na forma de bolos, pudins, sorvetes, broas e biscoitos.

A utilização da mandioca na forma mais diversificada e como alimento é particularidade dos paraenses, uma herança herdada de nossos ancestrais indígenas, cujo processo tecnológico de domínio da cultura vem desde a seleção do material genético de propagação para os plantios, até os processos de transformação em alimentos para o consumo humano e animal.

A seleção dos indígenas foi tão criteriosa que resultou em cultivares não venenosas para consumo in natura e até cultivares de alta concentração cianogênica, que só podem ser transformadas em alimentos após a trituração e torragem, para eliminação de sua toxicidade.
O Brasil é o berço de origem da mandioca para o mundo, um legado das populações indígenas para à moderna civilização. Posteriormente - com o intercambio dos colonizadores – a mandioca foi introduzida no continente africano e posteriormente no sudeste asiático.

Só existem na natureza duas espécies animais que na evolução são identificadas como agricultoras natas: as formigas e os térmitas, que cultivam um cogumelo, cujas secreções são a fonte de substâncias açucaradas que lhes servem de alimentos. Algumas formigas até são criadoras de pulgões, que também lhes oferecem essas doçuras.

O homem teve que aprender a cultivar as plantas e parece que nossos ancestrais amazônidas quando dominaram a mandioca como fonte de carboidratos na sua alimentação, não mais a abandonaram levando sempre umas manivas para multiplicação por onde quer que fosse a sua migração, semelhante às formigas que transportam sempre alguns inoculos do cogumelo (fungo), quando mudam de formigueiro.

A cultura da mandioca no Brasil é a sétima em área cultivada e a primeira em importância social, pela geração de renda e milhões de empregos, estando presente na agricultura de todos os estados brasileiros.

O Estado do Pará é o maior produtor do Brasil, com área cultivada de 300.000 de hectares e produção de 4,9 milhões de toneladas anuais. O consumo de mandioca no Pará é o mais diversificado do mundo, sendo o alimento de maior participação na culinária regional.

O dia a dia dos mandioqueiros se faz de limpar a roça, plantar, capinar, colher, descascar, ralar, prensar, peneirar, torrar, cozer, classificar, embalar, transportar e comercializar. Para outros pesquisar e ensinar.

De 21 a 25 de novembro deste ano, será realizado em Belém o XVII Congresso Brasileiro de Mandioca, com o tema “Sabores e Cheiros da Amazônia”, como reconhecimento do valor antropológico dessa nobre ultura em nossa região e no Brasil.

A mandioca é das mais importantes para a redução da fome de populações carentes na África, tanto que a Bill & Melinda Gates Foundation tem um relevante trabalho de pesquisa e fomento dessa cultura para elevar a produtividade, a qualidade e os nutrientes funcionais dessa raiz, para mitigar a tragédia da fome nesse continente.

A mandioca impressionou tanto a Bill Gates - que este ano foi eleito novamente o homem mais rico do mundo -, dado a importância por ele dispensada para a cultura desse tubérculo, como ferramenta de seu trabalho social, referindo-se com entusiasmo a esta dádiva da Natureza como “o mais interessante vegetal do mundo”.

Para brindar nossos clientes no dia da mandioca, a Embrapa Amazônia Oriental disponibiliza em seu site o livro “Cultura da Mandioca”, que trata de todos os assuntos referentes ao sistema de produção e de processamento da mandioca. O livro pode ser acessado gratuitamente no site da Embrapa.

* Pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, escritor e autor do blog Amazônia em Devaneios

Embrapa Amazônia Oriental

Telefone: (91) 3204-1099

Mais informações sobre o tema
Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC)
www.embrapa.br/fale-conosco/sac/


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